Vacina contra o H1N1 pode afetar teste de Aids
26/5/2010
Na reta final da campanha de imunização mais esperada pelos brasileiros em 2010, com mais de 60 milhões de pessoas vacinadas contra a gripe suína, o Ministério da Saúde divulgou no dia 21/5 - ao mesmo tempo em que anunciava a prorrogação da vacinação - um alerta: pessoas que receberam a dose contra o vírus H1N1 podem ter resultado falso-positivo em exame para detectar a Aids, mesmo sem ter o vírus HIV.

A advertência já havia sido encaminhada no início do mês, em nota técnica, aos profissionais de saúde, que devem estar atentos a essa possível alteração no teste. As autoridades sanitárias esclarecem que não há qualquer motivo para preocupação e recomendam àqueles que se vacinaram esperar por até 112 dias para se submeter ao teste de HIV.

Mesmo sem nenhum registro de paciente que tenha recebido o diagnóstico equivocado no país, o problema já havia sido detectado pela Agência Nacional Vigilância Sanitária (Anvisa) em março, mas foi abordado no início do mês pelo setor de DST/Aids do Ministério da Saúde. Segundo o ministério, tudo começou depois de um estudo norte-americano que alerta sobre a reação da vacina da gripe suína no exame de HIV.

De acordo com a nota técnica, devido à forma acelerada de produção industrial da vacina contra o vírus influenza A (H1N1), com o uso de novas tecnologias, não há ainda dados disponíveis sobre todos os efeitos adversos, porém, "foi observado que pessoas que tomaram a vacina, ao fazer o teste de HIV-1 apresentaram resultado falso-positivo", ou seja, os resultados indicam que o vírus HIV está presente, quando, na verdade, não está.

O falso-positivo ocorre, ainda de acordo com o ministério, porque a vacina contra a gripe aumenta a produção do anticorpo chamado de IgM (o primeiro batalhão de defesa do organismo), o que "engana" o Elisa, o teste mais comum feito no Brasil para diagnosticar o vírus da Aids. Essa reação faz o organismo reproduzir uma condição parecida com aquela de quem tem o vírus HIV. "Não há motivo para alarme neste comunicado. O problema seria se o exame indicasse falso-negativo, o que não é o caso", informa a nota.

Durante entrevista coletiva no Rio de Janeiro, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, comentou que a situação é rara e se dá por uma reação do organismo ao aumento do anticorpo IgM. "A recomendação aos que foram vacinados e precisam, no prazo de 30 dias, fazer o teste de Aids, é que, em caso positivo, não criem alarde. Refaçam o teste, informando ao laboratório que tomaram a dose da vacina." Temporão fez questão de esclarecer que não há nenhum risco de infecção pelo vírus da Aids por meio da dose do H1N1.

A orientação é de que, ao receber o teste positivo para o HIV, aquele que vacinou faça a contraprova com o método Western Blot, que está disponível no Sistema Único de Saúde, assim como em clínicas particulares, e é considerado mais rigoroso. Aos médicos, foi recomendado que o paciente que estiver nessa situação seja convocado para coleta de novas amostras após 30 dias, até que o diagnóstico seja definido.


Infectologistas explicam

A Sociedade Mineira de Infectologia recebeu a nota técnica do ministério esta semana e, de acordo com o presidente da entidade, o infectologista Carlos Starling, a divulgação foi prudente e educativa. "Um falso resultado pode ocorrer em qualquer teste. Por isso, sempre pedimos às pessoas que depois de tomar uma determinada vacina, esperem alguns dias para fazer qualquer exame, principalmente de doenças sorológicas", diz.

Ele explica que ao ser estimulado pela dose, o organismo gera anticorpos que podem "falsear" o resultado. "Um teste de HIV, por exemplo, procura anticorpos contra o vírus, mas eles podem ficar maquiados quando o organismo recebe uma dose de vacina. É como se confundissem o exame", explica Starling.

De acordo com infectologista Evaldo Estanislau Affonso de Araújo, da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), não há o que temer. "O diagnóstico pela infecção do HIV é bem-feito, há todo o cuidado e muitas etapas claras para confirmar um resultado", diz, lamentando que a informação sobre os resultados da vacina no teste de HIV possa afetar, sem motivo, o resto da campanha de prevenção. "Desde que essa vacina foi criada, foi cercada de uma onda de boatos negativos vindos da internet. Depois, polêmicas sobre os grupos prioritários. Essa dose é muito importante, segura e não transmite doenças. O teste é que sofre interferência e não a pessoa", diz, para completar: "Mesmo assim, é preciso que toda a comunidade médica esteja avisada, pois um colega despreparado pode não saber aconselhar e orientar alguém nessa situação".

Fonte: Estado de Minas (Clipping de notícias do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do MS)